A Prefeitura de São Paulo, decidiu delimitar os espaços públicos para as artes urbanas. Com esse propósito, através do projeto “Cidade Linda”, começou a apagar painéis em alguns pontos da cidade, como no centro e ao longo da avenida 23 de Maio, na zona sul da capital. A prefeitura também promete apagar as artes do “Arcos do Jânio”, e declara guerra aos pichadores: “Se preferirem continuar pichando a cidade, terão o rigor da lei. É tolerância zero”, disse o prefeito João Dória (PSDB).

Mureta sendo pintada de cinza na zona sul da cidade, em mais uma ação da Operação Cidade Linda

Foto: divulgação

A cidade de São Paulo é um grande expoente da arte urbana no mundo. Tem artistas de reconhecimento internacional e diversos talentos espalhados por toda capital. Através do Graffiti que é um dos elementos da cultura Hip Hop, as pessoas expressam seus questionamentos e convicções de uma forma não elitista! Sem precisar estar dentro de uma galeria, por exemplo. Portanto, apagar a arte urbana das ruas, é calar uma manifestação legítima das camadas menos visíveis de sociedades desiguais, como a nossa.

Desde décadas passadas, os artistas urbanos sofrem com a repressão e a falta de reconhecimento de seus trabalhos. Na gestão 2006 – 2012, o cinza predominou ao ponto de render um dos maiores documentários da história do Graffiti Paulistano, o filme “Cidade Cinza”. Registro que traz uma importante reflexão sobre o papel do graffiti e a participação dos artistas na cidade. Em 2011, após 11 grafiteiros serem presos por pintarem as colunas da Av. Cruzeiro, na Zona Norte, conseguiram dialogar e obter um apoio da Secretaria de Cultura do Estado e do Metrô para a realização do MAAU – Museu Aberto de Arte Urbana, no mesmo local. E na gestão 2013 – 2016, alguns artistas também conseguiram um diálogo com a prefeitura, que decidiu apoiar a produção de painéis em outros pontos da cidade, entre eles o da Av. 23 de Maio e no Arcos do Jânio. Conquistas da Arte urbana que vem sendo apagadas pela gestão atual.

Fotos/divulgação

Falta de diálogo

Os artistas reclamam da falta de diálogo entre a nova gestão da prefeitura e os fazedores de arte urbana. A realização da pintura das obras com tinta cinza, foi decidida da noite para o dia, sem haver antes uma conversa ou debate, e foi feito por pessoas que não tem conhecimento para decidir o que é arte ou não, segundo os grafiteiros.

O artista Mauro Neri, criador do projeto Cartograffiti e um dos curadores do painel na Av. 23 de maio, ressalta a importância do diálogo:

-“A prefeitura pode ainda conduzir de forma melhorada a gestão anterior, se informar, convidar os agentes que vem acumulando experiência nesse diálogo com as diversas partes da sociedade e do poder público. juntos discutir formas de fazer com que os transgressores e conservadores troquem seus repertórios e discutam pacificamente o que há de indispensável de conservar e o que há de importante transgredir.”

 

Foto/divulgação

 

 

O Educador e Gestor público Maykon Rodrigues dos Santos, também destaca importante observação sobre as ações do programa Cidade Linda:

-“Foi usado dinheiro público para apagar algo que foi pintado com dinheiro público em alguns pontos”.

Vídeo da artista plástica Barbara Goy mostra os graffitis sendo cobertos com tinta cinza

A artista Shalak, residente no Canadá e reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho, se expressou nas redes sociais:

– “É uma ação que lamentavelmente reflete o egoísmo e a ignorância da classe de controle que está dominando o Brasil todo. Eles com seu cinza, apagam cultura e arte publica, com a mesma mentalidade que apagaram a democracia de um pais inteiro…”

– “Não podemos aceitar qualquer tipo de censura cultural!”

Shalak, em união com Smoky, pintou um trecho do maior painel de graffiti da América Latina que foi apagado de cinza. O Painel foi inaugurado em 2015, tem 15 mil metros e obras de mais de 200 artistas.

Arte de Shalak Attack e  Bruno Smoky na Av. 23 de Maio – Imagem/divulgação
Obra dos artistas sendo apagadas de cinza

Ney Daz Rua, que é um dos principais artistas do grapixo, e teve uma das suas obras apagadas, acredita que essas ações tratam-se de “puro marketing”;

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– “O prefeito anterior, fez muito pela cidade! O que ele não fez foi investir em marketing. Ele chamou a população para participar da cidade e incluiu todos!! Chamou o ‘pixador’, o usuário de crack, os imigrantes e etc. Já o atual prefeito, disse que a cidade não é dos ‘pixadores’. Disse para denunciarem, tirarem fotos, só faltou falar para fazerem justiça com as próprias mãos! E todos nós sabemos o quanto os ‘pixadores’ sempre foram reprimidos. Acho que ele deu tiro no próprio pé. A tinta usada é de péssima qualidade, o cinza vai escorrer e as artes vão aparecer. Trabalho e dinheiro gasto em vão!!!  A ‘pixação’ em SP, já existe há mais de 30 anos, cada marca é uma manifestação de alguém, são milhares de turmas. Ele com a visão elitizada, só enxerga que trata-se de infratores, mas não tenta enxergar e compreender  a real razão dessas expressões.”

O grafiteiro Todyone, também se manifestou desenhando o Prefeito vestido de Gari, varrendo os graffitis e pichações para debaixo do tapete, e escreveu: “Isso não é arte, Romero Brito é top!”.

Graffiti do Artista Todyone, no Jardim da Camelias, Zona Leste de SP.

 

 

 

 

PIXO

Existe um grande debate sobre essa expressão ser arte ou não. Segundo o Prefeito, ‘Pixador’ não é artista. É agressor! E precisa ser combatido. Já entre os próprios ‘pixadores’, há controversas. Uns consideram arte, outros não. Alguns afirmam que é um protesto. Mas como definir algo que junta tipografia, pintura, performance, ato político e intervenção urbana em grande formato?

O fato é que o pixo é da “família” do graffiti. O graffiti surgiu da ‘pixação’ e muitos dos artistas urbanos já foram ‘pixadores’ um dia, ou ainda são, no momento em que fazem suas tags (assinaturas).

Uma ferramenta para refletirmos sobre o assunto, é o filme PIXO, que trata-se de um registro sobre o impacto da pichação como fenômeno cultural na cidade de São Paulo e sua influência internacional como uma das principais correntes da Street Art. O filme participou da exposição Né Dans la Rue (Nascido na Rua), da Fondation Cartier pour l’Art Contemporainem Paris. O documentário mostra a realidade dos ‘pixadores’, acompanha algumas ações, os conflitos com a polícia e mostra um outro olhar sobre algumas intervenções já muito exploradas pela mídia. O filme não traz respostas, mas fornece argumentos para o debate: pichação é arte ou é crime?

Assista on line: Documentário PIXO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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